Bem-vindos ao palpitante mundo da advocacia, onde cada caso é uma novela, cada cliente um protagonista e, por vezes, o advogado é o palhaço que tenta equilibrar pratos partidos no circo do tribunal. Hoje, falamos de um tema que faz tremer até o mais destemido advogado: o caso perdido. Sim, aquele processo que, à primeira vista, parece ter mais hipóteses de ganhar na lotaria do que na barra do tribunal. Mas, como diria o grande filósofo contemporâneo, Zé Cabra, “não há casos perdidos, há casos mal cantados”. Vamos então afinar a garganta e dar a volta ao texto ou ao processo, neste caso.

O desafio pessoal

Primeiro, é preciso encarar o caso perdido como um desafio pessoal, um duelo épico entre nós e o destino. Não se trata de ganhar ou perder, mas de mostrar que somos mais teimosos que uma mula jurídica. O segredo está em analisar o caso por ângulos tão criativos que até o juiz levanta uma sobrancelha, intrigado. Imaginemos, por exemplo, que o cliente foi apanhado a roubar um banco, com imagens de videovigilância, testemunhas e um saco de dinheiro com o logotipo do banco na mão. Perdido? Talvez. Mas e se argumentarmos que o cliente estava apenas a realizar uma performance artística de protesto ao capitalismo? “Meritíssimo, o meu cliente não roubou, ele encenou! Era um happening, uma instalação viva!” Claro, convém que o cliente saiba atuar e não apareça em tribunal com uma camisola a dizer “Amo assaltar bancos”. Criatividade é tudo.

Os detalhes deliciosamente surreais

Outro ângulo é explorar os detalhes mais absurdos. Imaginemos que representamos um cliente que provocou um acidente de carro por ir a enviar mensagens no telemóvel. As provas são esmagadoras: o telemóvel registou o momento exato da mensagem “LOL, vou bater num poste”. Em vez de nos rendermos, mergulhamos de cabeça no absurdo: e argumentamos que o cliente estava a realizar um estudo sociológico sobre a dependência tecnológica, e o acidente foi um “dano colateral científico”. “Meritíssimo, este homem é um mártir da ciência!” Se o juiz revirar os olhos, já ganhamos um ponto por entretenimento. E, quem sabe, talvez o juiz também seja viciado no WhatsApp e sinta uma pontinha de empatia.

A criatividade

Por vezes, o truque é mudar o foco. suponhamos que o cliente é acusado de difamação por chamar “calamidade ambulante” ao chefe numa rede social. A prova está lá, pública, com 127 gostos e 43 partilhas. Em vez de negar, transformamos o insulto numa questão de liberdade de expressão poética. “Meritíssimo, o meu cliente é um poeta moderno! ‘Calamidade ambulante’ é uma metáfora, um haiku corporativo!” Se conseguirmos convencer o tribunal de que o cliente é o próximo Camões das redes sociais, talvez saia com uma multa simbólica e um convite para um open mic num comedy club.

Mas cuidado: a criatividade não é sinónimo de loucura. Não devemos avançar cegamente para tribunal com argumentos do género “o meu cliente foi raptado por extraterrestres e obrigado a cometer o crime”. A menos, claro, que tenha uma nave espacial estacionada lá fora como prova. O objetivo é encontrar ângulos plausíveis, mas inesperados, que façam o adversário hesitar e o juiz pensar: “Ora, isto é tão maluco que até pode ser verdade.” É como jogar xadrez com um pombo: não interessa se o pombo sabe jogar, desde que ele faça o adversário perder a concentração.

Por fim, nunca devemos subestimar o poder do carisma. Um caso perdido pode ser salvo pelo um advogado que entra em tribunal como se fosse o Tony Carreira prestes a dar um concerto para 20 mil almas de ouvidos famintos. Sorrir, gesticular e contar uma história com convicção. Fazer o juiz esquecer que o cliente é culpado e lembrar-se apenas que somos uns porreiros. É meio caminho andado.

Enfrentar um caso perdido é como tentar convencer a avó a usar o TikTok: requer paciência, criatividade e um toque de malabarismo emocional. Analisar o caso de todos os ângulos, transformar fraquezas em épicos modernos e, acima de tudo, divertirmo-nos no processo. Porque, no fim, o que importa é sair de cabeça erguida, mesmo que o cliente seja condenado a pena de prisão. E, quem sabe se o juiz, farto de casos aborrecidos, não decide absolver o cliente só para ver que raio de argumento mirabolante iremos apresentar no próximo processo? No tribunal, como na vida, o impossível é só uma questão de perspetiva… e de um bom fato.

Agosto 2026

 

 

Nota: Este texto apresenta-se como um simples exercício de entretenimento, sem qualquer pretensão de emitir juízos de valor ou de conduta.