Sou advogada. E como qualquer advogada, também sou uma insuspeita consumidora de papel. A certa altura da minha carreira, comecei a suspeitar que a floresta amazónica não está em risco apenas por culpa de madeireiros ilegais, mas também por minha causa. Sim, confesso. Durante anos, cada vez que alguém me dizia “enviei por e-mail“, eu respondia com aquele sorriso nervoso de quem ouve mandarim e depois, silenciosamente, imprimia tudo em papel grosso, frente e verso, com espaço de 1,5, porque o espaçamento simples é coisa de amadores e o duplo é para quem quer fazer copy paste da Bíblia.
Era um vício. Um vício bonito. O cheiro do toner. O som da impressora a cuspir folhas como se fosse uma metralhadora jurídica. E depois, claro, o ritual: agrafar, sublinhar, fazer post its, mais sublinhados, sublinhar os sublinhados. Havia dias em que eu sublinhava tanto que o papel parecia ter sido pintado por um Jackson Pollock com um marcador fluorescente.
Mas então… veio o apocalipse digital.
O primeiro passo: comprar um tablet
Sim, comprei um tablet. O objeto em si é maravilhoso. Leve, elegante, e com uma bateria que dura mais que um processo cível. Coloquei-lhe um nome: “Drª. PDF Canêdo.” Levava o tablet para todo o lado, como se fosse o meu estagiário silencioso e superorganizado. Lia acórdãos, doutrina e, de vez em quando, por acidente, um romance policial que por acaso até tem mais lógica jurídica que certas sentenças que já li.
Mas o tablet também tem um problema: não cheira a papel. Não tem aquele prazer físico de virar uma página e dizer “hummm, jurisprudência de 1998, sabor a mofo com notas de esquecimento legislativo“. Ler no tablet é como fazer amor com luvas de boxe: competente, mas falta qualquer coisa.
O segundo passo: reorganizar o caos… ou tentá-lo
Claro que o processo não é perfeito. O meu computador tem tantas pastas mal organizadas que às vezes, para encontrar um recurso, por vezes preciso fazer uma reconstituição criminal dos meus próprios cliques. “A última vez que o vi, foi antes daquele parecer sobre responsabilidade civil extracontratual…”
O problema do digital é que não grita por atenção. Um papel no meio da secretária pode gerar ansiedade “o que é isto? O que se passa aqui?”, mas um PDF esquecido no desktop é um ninja: silencioso, letal e só aparece quando já é tarde demais.
Ainda assim, estou determinada. Tenho feito progressos. Até comprei uma daquelas fontes de água zen para o gabinete, para me lembrar que o fluxo da vida não passa pelo tinteiro da impressora. O próximo passo? Retirar os caixotes do lixo do escritório. Se não houver onde despejar o papel, não há papel. Simples. Radical. E, acima de tudo, assustador.
Exemplos que me envergonham (mas não muito)
Em tempos, imprimi um e-mail de 3 linhas… só para verificar se o assunto estava bem escrito. Já imprimi um acórdão de 127 páginas… em duas versões diferentes: uma para estudar, outra para sublinhar. Já imprimi a capa de um livro… porque gostei do design.
Houve um dia em que fui ao tribunal com um dossier tão pesado que tive de o empurrar com um carrinho de supermercado. Quando entrei na sala de audiências, o juiz olhou para mim e disse: “Trouxe o processo… ou os arquivos da PIDE?”
Portanto, sim: reduzi o papel. Comprei um tablet. Digitalizei muitos documentos. Estou mais leve, mais ecológica, quase um Dalai Lama com toga. O escritório parece um centro de meditação jurídica. As pessoas andam descalços e falam em sussurros. O papel está em declínio. Os caixotes do lixo já se estão a despedir.
Mas… ontem à noite, sonhei com papel. Sonhei que estava num campo de folhas A4, deitava-me nelas, fazia anjos de toner, sublinhava nuvens com marca texto rosa. Acordei com a mão esticada em direção à impressora desligada
Fevereiro 2026