Há anos que passam por nós como hóspedes de hotel: entram, dormem, comem o pequeno-almoço apressado e saem sem deixar nada além de um guardanapo amarrotado. O meu último ano, porém, não foi desses. Foi um ano que entrou porta adentro sem pedir licença, pousou as malas no meio do corredor e declarou com aquele descaramento simpático dos acontecimentos inevitáveis que vinha para ficar e para me pôr à prova.

Ser advogada é viver sempre com o coração a um compasso acima do recomendado. É uma profissão que nos pede mais do que horas: pede pedaços de nós. Pede que sintamos, que interpretemos, que traduzamos a alma dos outros para a linguagem complicada da lei. De vez em quando, tenho a sensação de que passo os dias a tentar explicar ao mundo que as pessoas merecem ser escutadas. E o mundo, obstinado, insiste em responder-me com prazos.

Há dias em que falo com processos como quem ralha com um filho traquina. Outros em que me sento no silêncio do escritório, a ouvir o tilintar insistente do email novo, e penso que este ofício é uma espécie de desporto emocional extremo. Dou por mim a sentir tudo ao dobro: a ansiedade dos clientes, a esperança deles, o medo deles e depois a minha própria mistura química de nervos, teimosia e fé na justiça. Talvez seja isso que mais cansa, mas também é isso que mais me prende: a intensidade quase poética de ajudar alguém a reencontrar chão.

Este ano, porém, trouxe-me um alívio inesperado, quase celestial a chegada da Filipa Rangel. Não sei bem como descrever o que ela tem sido, porque “braço direito” parece pouco e “milagre ambulante” parece exagero, mas ainda assim não chega. A Filipa tem uma dedicação silenciosa e precisa, daquelas que não se anunciam, mas se sentem. É a pessoa que está lá antes de eu pensar que preciso dela. A que resolve antes de eu pedir. A que ilumina o caos com uma organização tão natural que até me faz suspeitar que nasceu com um manual secreto de eficácia na algibeira.

Se eu consegui manter este ano a proximidade com os clientes, a qualidade no serviço, o sorriso nos dias complicados a culpa é dela. Sem a Filipa, teria sido tudo possível, sim, mas muito mais difícil. Daqueles “mais difíceis” que deixam as pessoas a falar sozinhas no carro, estacionadas à porta do escritório. Com ela, o trabalho ganhou leveza. E eu ganhei fôlego.

Entretanto, também me aventurei no blog. Ah, o blog. Estava convencida de que ia ser apenas um espaço de partilha profissional, mas transformou-se noutra coisa: numa espécie de divã literário onde vou pousando o cansaço, os desabafos, os absurdos do quotidiano jurídico, e às vezes até um ou outro riso inesperado. Escrever tornou-se a minha forma de respirar devagar, de organizar as emoções que a advocacia insiste em desarrumar.

Este também foi o ano em que recebi o convite para ir à televisão falar de um tema jurídico com aquela mistura muito portuguesa de espanto e pudor, como quem encontra um elogio esquecido no bolso de um casaco antigo. Não foi apenas um convite foi, sobretudo, um sinal silencioso de que o trabalho feito em salas fechadas, entre processos, pessoas e problemas reais, encontrou eco fora das paredes do escritório. Este convite, mais do que vaidade ou palco, soube a reconhecimento: o reconhecimento de uma carreira construída com rigor, persistência e uma certa teimosia ética de fazer bem, mesmo quando ninguém está a ver. Porque, no fundo, só se convida quem se acredita que sabe, e só se acredita em quem nunca tratou o Direito como espetáculo, mas como responsabilidade.

E agora, que o ano se fecha com um barulho suave como quem pousa um livro depois de ler a última página penso no futuro. Penso no que quero continuar a construir: mais trabalho, sim, porque nesta profissão não existe o “chega”; mais pessoas alcançadas, mais vidas tocadas, mais portas abertas. Mas sobretudo, quero continuar a exercer uma advocacia de rosto humano. Uma advocacia que olha nos olhos, que abraça a vulnerabilidade das pessoas, que reconhece que a lei só ganha sentido quando se cruza com a vida.

Não ambiciono ser a melhor do mundo; ambiciono ser a melhor possível para quem bate à minha porta. E isso, descobri este ano, faz-se com competência, claro, mas também com empatia, paciência, humor e aquela teimosia suave de quem acredita que cada cliente merece mais do que soluções jurídicas: merece cuidado.

O ano que passou não foi perfeito, nenhum é. Mas foi verdadeiro. Foi intenso. Cresci, tropecei, aprendi. E, acima de tudo, continuei. Com a Filipa ao meu lado, com os meus textos a desafogarem a alma, com a convicção de que advogar é muito mais do que exercer uma profissão: é participar na vida dos outros de uma forma honesta, próxima e profundamente humana.

Se o próximo ano vier com mais desafios que venha. Já arrumei espaço. Já estiquei o coração. E já limpei a secretária… com a ajuda da Filipa, naturalmente.

Boas Festas