Ser advogada com escritório próprio é como ser o capitão de um navio pirata: tens liberdade, o leme é teu, mas estás sempre à espera que um polvo gigante (ou um cliente) agarre o barco e o arraste para o abismo. As férias, esse mito dourado que os outros mortais celebram com caipirinhas e pés na areia, tornam-se para nós, advogadas, um campo minado de ansiedade, emails urgentes e aquela vozinha interior que sussurra: “E se o tribunal marcar uma audiência para amanhã?” Desligar do trabalho? Isso é tão provável como um juiz aceitar um recurso sem pedir mais esclarecimentos.
A verdade é que, para uma advogada, as férias não são um direito, são um processo negocial. Começas por planear: duas semanas em agosto, num sítio onde o Wi-Fi seja tão fraco que nem o WhatsApp funcione. Escolhes um destino remoto, tipo uma ilha onde a única rede disponível é a dos pescadores. Mas, mal chegas, o instinto jurídico entra em ação. Olhas para o mar e pensas: “Será que o contrato de arrendamento da minha secretária está atualizado?” Pegas no telemóvel para “só confirmar uma coisinha” e, de repente, estás a responder a um cliente que jura que foi multado por estacionar o carro… na sala de estar.
Um exemplo? No ano passado, decidi tirar uma semana num spa no Alentejo. Silêncio, meditação, zero tecnologia. Perfeito, pensei. Mal cheguei, recebi uma notificação do Citius. “Só abro para ver se é grave”, disse para mim mesma, como quem promete só comer um quadradinho de chocolate e acaba com a tablete inteira. Era um despacho de 47 páginas, com prazo de resposta de 48 horas. Lá fui eu, de roupão, chinelos, a cara cheia de argila verde, porque me garantiram um relaxe profundo naquela figura, enquanto a massagista me perguntava se preferia óleo de lavanda ou de eucalipto. “Prefiro um adiamento de prazo”, murmurei, enquanto redigia um requerimento com uma mão e segurava uma vela aromática com a outra.
Outro caso épico foi quando decidi fugir para as Berlengas, aquele arquipélago tão isolado que até as gaivotas parecem precisar de visto para lá chegar. “No meio do Atlântico, ninguém me encontra”, pensei, já a imaginar-me a meditar entre rochas e a conversar com os peixes, livre de notificações. Mal o barco atracou, o meu telemóvel apanhou uma nesga de rede maldito 5G! e lá veio um cliente em pânico: “Doutora, o meu vizinho diz que a minha galinha invadiu o quintal dele, é caso de tribunal!” Tentei ignorar, jurando fidelidade ao meu plano de desconexão, mas o homem enviou áudios, mensagens e, juro, até um pescador local me entregou uma garrafa com um pedido de providência cautelar escrito à mão. Passei o resto do dia a imaginar catástrofes: a galinha detida por invasão de propriedade, o meu escritório transformado num galinheiro, o Supremo Tribunal a condenar-me por “negligência avícola”. No fim, descobri que a galinha só tinha bicado uma alface. Mas já era tarde: as minhas férias nas Berlengas tinham se transformado num julgamento surreal com gaivotas como juradas e um polvo como juiz!
E não são só os clientes. O teu próprio cérebro é um traidor. Estás na praia, com um livro na mão, e começas a redigir mentalmente um contrato de prestação de serviços para as gaivotas que te roubaram o pão. Ou vês um casal a discutir no restaurante e, em vez de aproveitar o jantar, já estás a calcular quem ficaria com a custódia do tiramisu em caso de divórcio. Ser advogada é ter um interruptor que nunca desliga. Mesmo quando estás a apanhar sol, o teu subconsciente está a apanhar prazos
Há também o drama dos colegas. No meu escritório, sou eu quem coordeno, mas isso não impede de me ligarem em pânico porque “a impressora está a devorar papel incessantemente e ameaça roer os fios elétricos ao seu redor” ou “o cliente insiste em pagar em melões”. E os outros advogados? Esses são os piores. Sabem que estás de férias, mas mandam-te um “só uma dúvida rápida” que acaba numa conferência telefónica de três horas sobre a interpretação do artigo 47.º do Código Civil. No ano passado, uma colega ligou-me enquanto eu estava numa aula de yoga. “Doutora, é só um minutinho”, disse ela. Quando dei por mim, estava em posição de cão a olhar para baixo, a explicar a diferença entre dolo e negligência, enquanto o instrutor me pedia para “alinhar os chakras”.
O pior é a culpa. Aquela sensação de que, se desligares mesmo, o mundo jurídico vai colapsar. “E se o meu cliente precisar de mim? E se perder um prazo? E se o meu escritório for invadido por uma horda de testemunhas descontentes?” É como se fosses a Atlas do Direito, com o peso da toga nos ombros, mesmo quando estás de biquíni. E, claro, há sempre aquele cliente que te liga no último dia de férias, com um problema que “só tu podes resolver”. E tu resolves, porque és advogada, porque é o teu escritório, porque, no fundo, até gostas do caos.
As férias de uma advogada são um paradoxo hilariante: planeias descansar, mas acabas a descansar processos; sonhas com desconexão, mas conectas-te ao drama jurídico. É uma batalha épica contra clientes, prazos e o teu próprio instinto de toga. No fim, percebes que o verdadeiro descanso é aceitar que nunca vais desligar por completo e que, no fundo, até gostas disso. Enquanto escrevia este texto, recebi um email do tribunal a marcar uma audiência… para o dia em que planeava tirar férias. Parece que o destino tem um sentido de humor mais apurado que o meu. Alguém tem o contacto de um spa com Wi-Fi?
Julho 2025