Se há algo que, no tribunal, chama mais a atenção do que a expressão de quem percebe que não vai herdar o quinhão daquela tia que nunca acreditou no casamento nem na descendência, é a toga. Aquela peça preta, longa, esvoaçante, que transforma os advogados numa espécie de fusão entre um vocalista de uma banda gótica nórdica e um monge beneditino. Mas de onde surgiu esse traje tão carregado de solenidade? E, talvez mais pertinente, por que continuamos a usá-la em 2026, quando já temos robôs que nos cortam a pizza? Preparem-se para uma breve viagem no tempo.
Roma: onde tudo começou
A toga nasceu na Roma Antiga, esse berço da civilização onde se inventaram coisas úteis como aquedutos, estradas e a arte de discutir em público até alguém desmaiar. A toga virilis era o uniforme dos cidadãos romanos com estatuto, uma espécie de fato Armani da época, mas sem bolsos e com mais tecido do que uma cortina das nossas avós. Só os homens livres a usavam, e quanto mais branca e imaculada, mais gritava: “Sou importante, não me peças para carregar tijolos.” Os senadores e magistrados, vestiam-na em tribunas para mostrar autoridade, poder e, suspeito eu, para disfarçar nódoas de vinho tinto das festas da véspera.
Imaginem o cenário: Cícero, com a sua toga impecavelmente drapeada, a apontar o dedo a Catilina e a vociferar “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?” que é latim para “Até quando vais abusar da nossa paciência, pá?” A toga era o megafone visual da retórica. Sem ela, seria só um tipo de sandálias a gritar numa praça. Com ela, era justiça em movimento, um Batman sem capuz, mas com muito estilo.
Da Idade Média ao Renascimento, a toga vira moda jurídica
Com a queda de Roma, a toga podia ter ido parar ao baú das relíquias, ao lado das catapultas e das estátuas de deuses com narizes partidos. Mas não. A Igreja, que na Idade Média era o departamento jurídico de Deus, agarrou-se ao simbolismo da veste longa e solene. Os clérigos, que muitas vezes eram também juízes porque nada diz “imparcialidade” como um tipo com um crucifixo a decidir se vais para a fogueira, adaptaram a toga para os tribunais eclesiásticos. Era prático: escondia as pernas magricelas e dava um ar de “não me contradigas, senão falo com o chefe lá de cima”.
No Renascimento, quando a Europa decidiu que era giro fingir que éramos todos romanos outra vez, a toga voltou em força. Os juízes seculares, agora separados da Igreja, mas ainda com um fraquinho por roupa dramática, adotaram-na como uniforme oficial. Era o equivalente jurídico a dizer: “Somos sérios, somos clássicos e, se discordares, levarás com um martelo metafórico na cabeça”.
Porque ainda usamos este símbolo jurídico?
Chegamos ao século XXI, e a toga continua cá, teimosa como uma nódoa de molho de tomate numa camisa branca. Porquê? A justificação oficial é que a toga simboliza a imparcialidade e a igualdade perante a lei. Todos os advogados, ao vesti-la, deixam de ser o Zé da esquina ou a Maria do bairro e tornam-se agentes da Justiça, com J maiúsculo. É como se a toga fosse uma capa de super-herói que apaga a personalidade e nos lembra que ali não há ricos nem pobres, só réus e queixas.
Mas vamos ser honestos: há um certo teatro nisto. A toga é um resquício de uma época em que a autoridade precisava de se pavonear para ser levada a sério. Hoje, num mundo onde o TikTok decide tendências e o Instagram inspira sentenças (ou quase), a toga parece um anacronismo glorioso como usar um monóculo para ler o WhatsApp. E, no entanto, funciona. Entramos num tribunal, vemos aquele mar de tecido preto, e pensamos: “Isto é a sério, é melhor não mentir sobre os laços de sangue da minha tia.”
A toga como metáfora da vida
No fundo, a toga é mais do que um pano com mau feitio para dobrar. É uma metáfora ambulante: pesada como a responsabilidade da justiça, larga como as interpretações da lei, e um bocadinho ridícula como todos nós quando tentamos parecer importantes. Podia ser substituída por um fato moderno ou um uniforme minimalista à la Steve Jobs, mas perderíamos algo. Perderíamos o peso da história, o charme de nos sentirmos, por um instante, como figurantes numa tragédia grega.
Por isso, da próxima vez que virem um advogado de toga, não se riam do ar teatral emproado. Pensem em Cícero, nos clérigos medievais ou nos advogados que suam lá dentro no verão. A toga não é só roupa é um lembrete de que a justiça, como uma tragicomédia por vezes mal ensaiada, precisa de um bom guarda-roupa para convencer o público. E, convenhamos, entre uma alegação proferida por um tipo de fato cinzento e outra por um mestre jedi de negro, eu fico com o jedi. Sempre!
Janeiro 2026