Numa destas noites de insónias, dei por mim a pensar que se há profissão que merece um Tinder próprio, é a dos advogados. Não falo de encontros românticos, mas de uma plataforma de networking, um espaço onde os doutores de toga pudessem fazer swipe right em colegas, clientes ou causas perdidas. Imaginem: “LexMatch: onde o Direito encontra o seu par perfeito.” Porque, sejamos honestos, o LinkedIn é muito giro para pôr fotos de fato e dizer que somos “apaixonados por justiça”, mas falta-lhe aquele toque de caos, aquele frisson que só um Tinder jurídico poderia trazer.

Primeiro, o perfil. Nada de “gosto de passear à beira-mar” ou “sou louco por sushi”. Aqui, a bio seria: “Especialista em contencioso, 37 anos, 12 recursos ganhos, procuro parceiro para dividir custas processuais e uma garrafa de tinto num jantar às 2 da manhã depois de perder o prazo de uma contestação.” A foto? Um advogado de braços cruzados em frente ao Palácio da Justiça, com um filtro que lhe dá um ar ligeiramente menos exausto. E, claro, o campo obrigatório: “Área de prática preferida.” Porque ninguém quer dar match com um penalista quando está à procura de um fiscalista para desenrascar um IVA mal declarado.

O sistema de swipe seria glorioso. Swipe left num tipo que escreve “sou um pitbull no tribunal” porque isso ou é bluff ou ele morde mesmo, e eu não quero descobrir. Swipe right numa advogada que promete “análise contratual mais afiada que uma navalha japonesa e disponibilidade para discutir jurisprudência ao pequeno-almoço.” Match feito, e em vez de “olá, tudo bem?”, a conversa começa com: “Já viste o acórdão do Supremo sobre o artigo 103.º? Brutal, não achas?” Romântico, à sua maneira.

E os exageros? Ah, esses seriam épicos. Imaginem o perfil de um advogado de divórcio: “Chamam-me o cirurgião das partilhas: corto patrimónios ao meio com precisão clínica. Se tens um cônjuge para despachar ou um cliente com um ex vingativo, sou o teu homem. Gosto de longos passeios pelo tribunal de família e de gritar ‘indeferido!’ em vez de ‘próxima!’” Ou um penalista mais criativo: “Defendo-te como se fosses o meu próprio irmão a não ser que sejas culpado, aí entrego-te ao juiz com um laço vermelho. Fã de interrogatórios longos e de café frio às 4 da manhã na esquadra. Swipe right ou corre, depende do teu cadastro.”

O LexMatch teria funcionalidades únicas. Em vez de “Super Like”, teríamos o “Mandado de Urgência”, uma notificação que aparece no telemóvel do outro: “O Dr. António insiste em falar consigo sobre um caso de usucapião antes que prescreva.” E para os mais tímidos, o “Embargo Preliminar”: envias uma mensagem, mas só é entregue se o outro lado aceitar o teu “requerimento de contacto”. Nada de ghosting aqui, só “o requerido não apresentou contestação no prazo legal.”

Claro, haveria perfis que ninguém quer. O advogado que só faz testamentos: “Procuro herdeiros para networking, ou clientes que queiram deixar-me uma percentagem por baixo da mesa. Gosto de redação notarial e de chá de camomila enquanto espero que o testador bata a bota.” Ou o estagiário desesperado: “23 anos, ainda sem cédula profissional, faço-te um contrato por 50 euros e um café. Swipe right se tiveres um caso para me dar experiência ou uma impressora que funcione.”

E os encontros? Nada de jantares caros ou cinemas. O primeiro date é num café manhoso ao lado do tribunal, com dois volumes de processos debaixo do braço. “Então, o que achas da reforma do Código de Processo Civil?” pergunta ela, enquanto ele responde: “Prefiro falar do teu parecer sobre o habeas corpus.” Faíscas voam, mas são só as da impressora avariada do escritório. Se correr bem, combinam dividir um cliente chato que quer processar a vizinha por causa de um galinheiro ilegal.

O LexMatch seria mais que uma app, seria um estilo de vida. Um sítio onde os advogados encontram parceiros para debater o Código Penal, trocar contactos de juízes que não adiam audiências ou só desabafar sobre aquele cliente que acha que “prova” é o que sentiu no coração. No fundo, o Tinder dos advogados não é sobre amor é sobre sobreviver à profissão com alguém que percebe que uma toga não é uma capa de super-herói. Swipe right, doutores. A justiça espera.

Novembro 2025