Há pouco tempo, acordei com a sensação nítida de que o universo tinha decidido, por unanimidade e sem direito a voto em branco, que eu merecia uma pequena humilhação pedagógica. Uma daquelas humilhações que não constam no Código de Processo Civil, mas que deviam constar num anexo: “Artigo 0.º Do Dia Em Que Tudo Corre Mal e Ainda Assim Tens de Ir Trabalhar”.
Começou logo de manhã, quando a máquina do café decidiu exercer o seu direito à greve. O café saiu com a consistência emocional de uma testemunha nervosa: aguado, hesitante e pouco convincente. Bebi aquilo na mesma, porque um advogado sem café é um cidadão em situação de vulnerabilidade extrema, quase um menor acompanhado por si próprio.
Saí de casa a correr, com a pasta numa mão e a dignidade noutra (a dignidade escorregava um bocado), e percebi, já a meio da rua, que tinha deixado o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Voltei atrás, subi as escadas como quem foge de um crime que ainda não cometeu, e quando cheguei ao topo, dei de caras com o vizinho, que aproveitou a oportunidade para me relatar, com detalhe clínico, o estado de saúde intestinal do seu gato. Em dois minutos fiquei altamente qualificada em indisposições intestinais de felinos domésticos.
Cheguei ao escritório atrasada e com a sensação de que a vida me tinha passado uma rasteira com gravata e tudo. Abro o e-mail e encontro uma mensagem de um cliente com o assunto: “URGENTE!!!!!”. Caps Lock e cinco pontos de exclamação são sempre um sinal de que a pessoa está calma, ponderada e emocionalmente estável. Abri o e-mail e descobri que o “urgente” era, afinal, uma dúvida sobre se devia ou não responder a um SMS do ex-marido. Tentei explicar, com a delicadeza de quem não quer ser processado por frustração alheia, que o ordenamento jurídico português ainda não regula, de forma expressa, a arte de ignorar mensagens de ex-cônjuges às três da manhã.
Entretanto, toca o telefone. É outro cliente, que começa a frase com: “Doutora, eu só fiz uma coisinha sem importância…”. Esta expressão, em linguagem jurídica informal, significa invariavelmente: “Prepare-se para um incêndio com faturas, testemunhas e um pequeno detalhe criminal”. A “coisinha sem importância” revelou-se uma obra no quintal feita sem licença, sem projeto e, aparentemente, sem noção de gravidade. Expliquei-lhe, com um sorriso profissional que dói nos maxilares, que o urbanismo não é uma espécie de sudoku criativo onde cada um inventa as regras conforme lhe apetece.
Quando me preparava para organizar a agenda do dia, reparei que tinha trocado duas horas de audiências. Resultado: eu estava pronta para uma audiência que só ia acontecer na semana seguinte e completamente despreparada para a que ia acontecer dali a dez minutos. É o tipo de situação que faz uma pessoa questionar se a faculdade de Direito não devia incluir uma cadeira obrigatória de “Gestão de Agenda em Ambiente de Pânico”.
Corri para o tribunal como quem foge de um filme de terror de baixo orçamento. Cheguei ofegante, com o cabelo a parecer que tinha sido penteado por um ventilador, e com aquele ar de quem jura que domina a situação, apesar de tudo no seu corpo indicar o contrário. Entrei na sala e cumprimentei o juiz com a formalidade de quem tenta compensar o atraso com excesso de boas maneiras, o que nunca funciona. Há um ponto em que a polidez se torna suspeita.
Durante a audiência, o meu cliente decidiu improvisar. A improvisação em tribunal é uma arte muito apreciada por quem gosta de reality shows, mas pouco valorizada por magistrados. A cada frase inesperada do cliente, eu sentia um pequeno enfarte jurídico a acontecer dentro de mim. Tentei, com o olhar, pedir-lhe que se lembrasse do ocorrido, mas o olhar de advogado em pânico é interpretado, na maior parte das vezes, como um convite à sinceridade radical.
Quando finalmente saí do tribunal, com a sensação de ter sobrevivido a uma maratona sem ténis, percebi que tinha perdido a caneta preferida. É um luto silencioso, a perda de uma caneta boa. Não é uma caneta qualquer: é aquela que escreve mesmo quando o papel é mau e a vida pior. Fiz o percurso todo para trás à procura dela, como se estivesse a tentar recuperar a juventude. Não encontrei a caneta, mas encontrei um senhor que me perguntou onde ficava a sala de audiências. Dei-lhe indicações com a convicção de quem finge conhecer o edifício desde sempre, embora me tenha perdido três vezes naquele mesmo dia.
De volta ao escritório, deparei-me com uma pilha de processos que, por alguma razão, parecem multiplicar-se quando não estamos a olhar para eles. É o fenómeno da reprodução espontânea dos dossiers: deixamos três em cima da secretária e, quando voltamos, estão lá sete, todos com post-its a dizer “ver com urgência”. Passei o resto da tarde entre telefonemas, e-mails e a sensação persistente de que alguém tinha carregado no botão “modo difícil” da minha profissão.
Ao final do dia, já com a cabeça a latejar e o café a circular nas veias em substituição do sangue, percebi que tinha cometido um erro num requerimento. Nada de catastrófico, mas o suficiente para me obrigar a fazer uma correção e a enviar um pedido de desculpas formais, aquele tipo de pedido que é educado, técnico e acompanhado de uma culpa existencial profunda. Carreguei o requerimento, respirei fundo e pensei seriamente em mudar de carreira para algo menos stressante, como domadora de leões com problemas existenciais.
Março 2026